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Dez anos sem Dom Jaime

A multidão começava no antigo aeroporto com pista de terra e se estendia até a praça em frente à velha catedral de madeira. Milhares de pessoas, gente vinda desde as barrancas do Paranazão, mais as numerosas caravanas originárias de outras regiões do estado, da capital e de cidades do estado de São Paulo. 24 de março de 1957. 

     De dentro do pequeno avião desceu um jovem de 40 anos vestindo batina branca. Era o primeiro bispo de Maringá, Dom Jaime Luiz Coelho, que chegava para assumir o governo de sua diocese. Paulista nascido em Franca, vinha de Ribeirão Preto, onde fora pároco da catedral. O prefeito Américo Dias Ferraz recebeu-o com as devidas honras, entregando-lhe a chave do município. Em seguida ele foi conduzido em carro aberto até o centro, aplaudido pela população ao longo da Avenida Brasil. Num tablado diante da catedral pioneira, Dom Jaime dirigiu-se ao seu rebanho: “Queridos diocesanos…” – foram suas primeiras palavras, que ele repetiu até o final da vida, aos 97 anos. 

     Era a primeira vez no mundo que uma cidade com menos de 10 anos ganhava o status de sede de bispado, por decisão do Papa Pio XII. Até então Maringá fazia parte da diocese de Jacarezinho. O território sob a jurisdição canônica de Dom Jaime contava com 15 paróquias e abrangia 24 municípios, numa área total de 13.455km quadrados. Havia apenas 7 padres seculares e 22 religiosos, além de 22 irmãs e 5 irmãos. Com um time tão pequenininho, a primeira preocupação do novo bispo foi a criação de um seminário. De março a dezembro de 1957, pilotando uma Rural Willys, Dom Jaime visitou todas as paróquias e administrou mais de 70 mil crismas. 

     Era o bispo certo no lugar certo no tempo certo. Um bispo peitudo. Numa região que ainda respirava o aroma da mata recém-aberta, habitada por homens e mulheres vindos das mais diferentes origens, a tarefa de um líder religioso não era moleza. Era preciso ele se misturar com as famílias pioneiras e junto com elas enfrentar o desafio de construir um mundo novo. Dom Jaime arregaçou as mangas e fez da Igreja em Maringá um dos fatores decisivos do rápido desenvolvimento deste rincão prodigioso. 

     Graças ao seu poder de liderança, ele conseguiu o apoio da comunidade para em pouco tempo dotar a cidade de instituições fundamentais, como a Santa Casa, o Colégio Santa Cruz, o Colégio Regina Mundi, o Colégio Marista, o Albergue Santa Luísa de Marilac, o Núcleo Social Papa João 23, além da Catedral Basílica de Nossa Senhora da Glória, que passou a ser o nosso monumento-símbolo. 

     Porém sua ação não se limitou ao âmbito da Igreja Católica. Basta lembrar, entre tantas outras realizações, a atuação do nosso primeiro bispo na criação do primeiro curso superior de Maringá, a Faculdade Estadual de Ciências Econômicas, ponto de partida para a criação da Universidade Estadual de Maringá.

     No dia 5 de agosto próximo fará dez anos que ele, quase centenário, voltou para a casa do Pai. Sem dúvida, foi o personagem-central da gloriosa história do pioneirismo maringaense. Um homem que jamais será esquecido. Continuará para sempre na memória e no coração de todos os que tivemos o privilégio de conviver com ele e dos que futuramente ouvirem falar de suas grandes realizações.

     Provavelmente ficará também imortalizado como nome de uma de nossas principais avenidas, justíssima homenagem que, segundo fiquei sabendo, já está em andamento na Câmara Municipal.

     A bênção, Dom Jaime.

A. A. de Assis
Foto – Reprodução

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