Maringá, 18 de Junho de 2019
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DOM ANUAR BATTISTI
Arquidiocese de Maringá
 

As fogueiras que ainda queimam

Por motivos vários, entre eles a segurança e a conservação da natureza, hoje desapareceram as fogueiras. O folclore típico retratando a vida simples do campo e do assim chamado caipira, com as comidas típicas, se limita apenas em festa nos clubes, escolas, até como forma de arrecadação e ajuda ao apertado orçamento anual. Saudosismo ou não, mas eram tempos diferentes. Tudo era simples, tudo em família. Nos arraiais do caboclo, com danças e comidas típicas, passava-se o tempo contemplando as chamas da fogueira a transformar os troncos em brasa ardente, para depois passar com os pés descalços. E o povo a gritar de alegria.

Tudo isso faz parte do passado, dos tempos em que não havia a complicação do ativismo da vida moderna e dos aglomerados urbanos, cobertos pelo anonimato e a indiferença. Como seria diferente se as fogueiras voltassem a queimar não a lenha, mas os corações distantes, frios e egoístas do homem e da mulher deste tempo, para redescobrir a beleza de ser gente com coração capaz de amar e ser amados.

Quero recordar entre as fogueiras históricas aquela que Zacarias fez para anunciar aos parentes e vizinhos o nascimento de João. Fogo, fumaça, luz comunicando vida, anunciando um novo tempo brotado do ventre daquela que chamavam estéril. A fogueira de São João desapareceu e com ela a vida, principalmente dos que foram gerados e não puderam nascer. 

Existem fogueiras que permanecem e que jamais se apagarão. Elas foram acesas há mais de dois mil anos e continuam incandescentes como se fossem acesas hoje. São duas relatadas nos evangelhos e ambas relacionadas a Pedro. A primeira queimava no pátio de Anás, sogro do sumo sacerdote Caifás, lugar onde levaram Jesus depois de ser entregue por Judas no jardim do Getsêmani (Lc 22,55).

Ao redor daquele fogo estava Pedro, aquecia-se e fingia ser um qualquer no meio de tantos que por curiosidade se aglomeravam a fim ver o resultado final da condenação daquele que ensinava nas sinagogas e praças e se fazia chamar de Mestre, o homem galileu. Em meio a esta expectativa, Pedro perde o anonimato diante de uma empregada, e por três vezes nega ter conhecido o Homem de Nazaré.

A fogueira passa a queimar naquele momento não a lenha, mas a traição, a vergonha, a falta de coragem, a amizade traída, as promessas de seguimento á todo custo. Tudo foi ao fogo pelo medo covarde ligado à fraqueza humana de quem é interpelado ao testemunho na hora em que menos espera. O que ficou no coração daquele homem a queimar como nunca foi a dor da traição e do fracasso. Depois chorou amargamente, ficando ausente em todos os passos da condenação e da morte do melhor amigo.

A segunda fogueira foi acesa por Jesus, que por graça do Criador não tem nenhuma curiosidade ou falsos interesses, mas simplesmente o amor através de alguns peixinhos assados a esperar os desiludidos discípulos depois de uma noite fracassada de pesca. Foi na praia do Mar da Galiléia (Jo 21,9), onde acontecera o primeiro encontro com Pedro, André e Tiago. Apesar de experientes pescadores, trabalhando a noite toda, arriscam de madrugada, mas nenhum resultado.

Foi então que ouviram uma voz, mandando jogar as redes à direita do barco. Que bela surpresa, a abundância foi tão grande que quase afundavam os barcos. O sentimento naquele momento não podia ser outro a não ser, o de dizer: ”È o Senhor”. Essa é a fogueira da reconstrução de uma vida nova, com o ressuscitado. Foi ali que Jesus perguntou: Pedro, tu me amas mais do que estes? Foi três vezes perguntado em contraposição à tríplice negação. E a resposta foi também três vezes afirmativa: “Tu sabes tudo, Tu sabes que te amo”. A confirmação de Jesus é imediata: “Apascenta as minhas ovelhas”.

Amigo, não importa o que você tenha feito ou deixado de fazer, existirá sempre uma fogueira, onde Jesus te espera com um peixinho assado na brasa do amor de Deus por você.

Dom Anuar Battisti é arcebispo metropolitano de Maringá-PR
Foto: Reprodução

 
  
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